• Raoni Cusma

O novo mercado e o imperativo do incerto

Atualizado: Jun 22

Você realmente acredita que a soberba das marcas é maior que os voláteis desejos e necessidade de pessoas comuns, complexas e ambíguas?


Relatividade de MC Escher (1953)

Marcas têm papel secundário e serve para fazer parte da jornada das pessoas, e só. E isso faz com que todas as marcas sejam substituíveis. Esta provocação já seria coerente em um momento pré coronavírus, porém como fica o mercado e a proposição de experiência de consumo em um universo pós pandemia?


De pronto a única sentença que é possível dizer é que entre a estratégia e a execução da proposta existe apenas a incerteza do agora sobre um possível amanhã, o que torna qualquer análise fria sobre o mercado e consumo um possível e simplório papo de boteco.


De fato, não existe perspectiva sobre qual será um novo “normal” e se torna ingênuo o que imagina tal futuro. Portanto o único chão possível de se ter como algo que seja real é a necessidade de desconstrução para mais leitura mais apurada, plural e lúcida das pessoas, e um fundamental redesenho do mapa mental de um mercado que ainda não aprendeu a estimular o que a de sublime, único e não esteriotipavel no ser humano.


No que tange a desconstrução, o primeiro e mais fundante ponto é que não existe verdade absoluta e o que te fez chegar até aqui provavelmente não irá te levar para eldorado. E isso se faz lógico não só pela dinâmica do mercado, mas pela imposição de uma nova realidade formada por um profunda e solitária interação entre o seu cliente e ele mesmo.


Isso pode parecer místico, mas entenda que o autoconhecimento é um risco para a normalidade. Para tornar tal risco mais visual e menos etéreo, imagine que boa parte do movimento do mercado era baseado no consumo por impulso, onde eu me produzia comprando coisas que não precisava para manifestar quem eu não era para pessoas desconhecidas em sua maioria e ambientes que não necessariamente me fazem sentido, e isso quer dizer que o que mobiliza de fato o mercado era um mix orientado para a construção de um status e um sentido de belo terceirizado por uma cultura pouco humanizada.


Mas a partir do isolamento social se faz imperativo analisar o como a sociedade fez-se corpo, e como este corpo formatou percepção do eu, tornando o conceito raso de beleza que a sociedade e seus mercados legitimaram como algo frágil e inculto. O que por sua vez faz com que a experiência que este eu em descoberta com novos rituais crie outros anseios e descubra que muito do que lhe formou não lhe agregará mais nada. Este é um risco para marcas que acreditam ter onipresença na vida de qualquer sujeito.


E, na relação do novo mapa mental é simples. Para este nova economia de experiências incertas a única clareza provável é que relações estão sendo revistas, por tanto humanizar as formas de interação entre marca e consumidor se faz mais vital do que nunca, pois não se esqueça que seu público é formado por pessoas que buscam respeito a sua inteligência e pertencimento para soluções de desafios humanos e cotidianos que mudam a cada instante.


Outra complexidade para estes novos tempos, é que pela circunstância não existiram tendências consolidadas e coerentes com o espírito do tempo para insights assertivos de inovação, pois para cada novo comportamento social que ganha vulto, nasce um contra comportamento de igual força. As tendências terão origem a partir do amadurecimento de tais comportamentos e o indicativo de qual é tem mais poder e constância. Até este momento teremos apenas fatos portadores de futuro que nos davam sinais de um possível vir a ser.


Logo, para compreender um novo mercado baseado no imperativo do incerto só nos cabe a empatia como construção de estratégia e a humanização real e não apenas teórica das relações.


Por fim, toda relação tem como fim uma experiência, tal experiência manifesta uma percepção que se baseia em um repertório subjetivo e exclusivo de cada sujeito. Esta percepção constrói realidades. Ou compreendemos o como fazer parte de realidades que não são as nossas com dignidade e consciência de nosso papel no mundo e das reações que as nossas ações têm, ou faremos deste é o momento de necessária reinvenção e humildade um momento onde aprendemos nada ou muito pouco sobre ser significantes.


Escrito por Raoni Cusma

Especialista e consultor de Design de Conceito, palestrante e professor universitário, graduado em Gestão Pública (FGV); pós-graduado em Design Estratégico (IED) e em Psicologia Analítica (IJEP).

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